Ilha africana marcada pela escravidão encontra no turismo sua principal fonte de renda

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Ilha africana marcada pela escravidão encontra no turismo sua principal fonte de renda

Patrimônio Mundial da Unesco, Gorée preserva a memória do tráfico de africanos escravizados e sustenta moradores por meio do turismo cultural

Vista da Ilha de Gorée, no Senegal
Vista da Ilha de Gorée, no Senegal. Foto: Bruno de Freitas Moura/Agência Brasil

Localizada a poucos quilômetros da costa de Dacar, capital do Senegal, a Ilha de Gorée carrega uma das histórias mais dolorosas da humanidade. Durante séculos, o território foi utilizado como ponto de embarque de africanos escravizados enviados compulsoriamente para as Américas.

Hoje, o pequeno território de apenas 17 hectares transformou a preservação da memória histórica em sua principal atividade econômica. Declarada Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco em 1978, Gorée é o destino turístico mais visitado do Senegal.

A ilha se tornou símbolo internacional da memória da escravidão africana e recebe visitantes de diversos países interessados em conhecer sua história e cultura.

O fluxo constante de turistas representa a principal fonte de renda para os cerca de 1,7 mil moradores da ilha, segundo dados da Agência Nacional de Estatística e Demografia do Senegal.

Turismo sustenta moradores da ilha

Fama Sylla em sua loja na Ilha de Gorée
A comerciante Fama Sylla trabalha com artesanato e acessórios típicos. Foto: Bruno de Freitas Moura/Agência Brasil
Chaua Sall vende esculturas tradicionais africanas
Chaua Sall comercializa esculturas tradicionais africanas para turistas. Foto: Bruno de Freitas Moura/Agência Brasil

Ainda no porto de Dacar, antes mesmo da travessia até Gorée, comerciantes já tentam atrair visitantes interessados em artesanato, acessórios e peças tradicionais africanas.

A senegalesa Fama Sylla explica que sua família vive do comércio local há gerações.

“O turismo é muito importante aqui porque vivemos disso”, afirma Fama Sylla.

Outro comerciante da ilha, Chaua Sall, vende esculturas de madeira representando animais africanos e elementos culturais típicos da região.

Segundo ele, turistas vindos de países como França, Brasil, Estados Unidos, Espanha, Alemanha e Itália ajudam a movimentar a economia local.

Casa dos Escravos preserva memória histórica

O principal ponto histórico da ilha é a Casa dos Escravos, construção que servia como centro de aprisionamento de africanos antes do embarque forçado rumo às Américas.

O local abriga a chamada “Porta do Não Retorno”, passagem simbólica por onde milhares de homens, mulheres e crianças deixavam definitivamente o continente africano.

A Casa dos Escravos se transformou em espaço de memória, reflexão e educação sobre os impactos da escravidão.

Guias turísticos da ilha relatam que muitos visitantes se emocionam ao conhecer as celas e corredores preservados do período colonial.

O guia Mamadou Bailo Diallo lembra que o líder sul-africano Nelson Mandela visitou a ilha e se emocionou profundamente ao conhecer uma das antigas celas de punição.

Arte e cultura como forma de sobrevivência

Cheikh Sow em seu ateliê de arte na Ilha de Gorée
Cheikh Sow trabalha com pinturas inspiradas na cultura africana. Foto: Bruno de Freitas Moura/Agência Brasil

Além do artesanato, muitos moradores vivem da produção artística. O pintor Cheikh Sow utiliza técnicas com cola e pigmentos para criar quadros que retratam paisagens africanas e cenas culturais tradicionais.

Ele conta que decidiu seguir carreira artística como forma de garantir sustento para sua família.

“Com essas pinturas, tentamos construir uma vida melhor”, relata o artista senegalês.

Para muitos moradores, o passado de sofrimento permanece vivo como memória histórica, mas a prioridade das novas gerações é construir oportunidades econômicas por meio do turismo, da arte e da cultura.

Espaço de educação e reflexão

Além de turistas estrangeiros, Gorée recebe diariamente excursões escolares de estudantes senegaleses, transformando a ilha em uma verdadeira sala de aula a céu aberto.

Para o engenheiro civil Daouda Ndiaye, visitante entrevistado pela Agência Brasil, a preservação da ilha é essencial para manter viva a memória dos milhões de africanos afetados pela escravidão.

“Este lugar representa uma memória viva, um capítulo doloroso da história que é essencial preservar para que nunca seja esquecido”, afirmou.

Atualmente, os sons de turistas, estudantes e comerciantes substituem o silêncio e o sofrimento que marcaram a ilha durante os séculos do tráfico transatlântico de africanos escravizados.

Fonte: Agência Brasil
Grupo de crianças e adultos na costa, alguns brincando na água e outros sentados em pedras. Várias embarcações pequenas estão ancoradas ao fundo.
© Bruno de Freitas Moura/Agência Brasil

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