Patrimônio Mundial da Unesco, Gorée preserva a memória do tráfico de africanos escravizados e sustenta moradores por meio do turismo cultural
Localizada a poucos quilômetros da costa de Dacar, capital do Senegal, a Ilha de Gorée carrega uma das histórias mais dolorosas da humanidade. Durante séculos, o território foi utilizado como ponto de embarque de africanos escravizados enviados compulsoriamente para as Américas.
Hoje, o pequeno território de apenas 17 hectares transformou a preservação da memória histórica em sua principal atividade econômica. Declarada Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco em 1978, Gorée é o destino turístico mais visitado do Senegal.
O fluxo constante de turistas representa a principal fonte de renda para os cerca de 1,7 mil moradores da ilha, segundo dados da Agência Nacional de Estatística e Demografia do Senegal.
Turismo sustenta moradores da ilha
Ainda no porto de Dacar, antes mesmo da travessia até Gorée, comerciantes já tentam atrair visitantes interessados em artesanato, acessórios e peças tradicionais africanas.
A senegalesa Fama Sylla explica que sua família vive do comércio local há gerações.
Outro comerciante da ilha, Chaua Sall, vende esculturas de madeira representando animais africanos e elementos culturais típicos da região.
Segundo ele, turistas vindos de países como França, Brasil, Estados Unidos, Espanha, Alemanha e Itália ajudam a movimentar a economia local.
Casa dos Escravos preserva memória histórica
O principal ponto histórico da ilha é a Casa dos Escravos, construção que servia como centro de aprisionamento de africanos antes do embarque forçado rumo às Américas.
O local abriga a chamada “Porta do Não Retorno”, passagem simbólica por onde milhares de homens, mulheres e crianças deixavam definitivamente o continente africano.
Guias turísticos da ilha relatam que muitos visitantes se emocionam ao conhecer as celas e corredores preservados do período colonial.
O guia Mamadou Bailo Diallo lembra que o líder sul-africano Nelson Mandela visitou a ilha e se emocionou profundamente ao conhecer uma das antigas celas de punição.
Arte e cultura como forma de sobrevivência
Além do artesanato, muitos moradores vivem da produção artística. O pintor Cheikh Sow utiliza técnicas com cola e pigmentos para criar quadros que retratam paisagens africanas e cenas culturais tradicionais.
Ele conta que decidiu seguir carreira artística como forma de garantir sustento para sua família.
Para muitos moradores, o passado de sofrimento permanece vivo como memória histórica, mas a prioridade das novas gerações é construir oportunidades econômicas por meio do turismo, da arte e da cultura.
Espaço de educação e reflexão
Além de turistas estrangeiros, Gorée recebe diariamente excursões escolares de estudantes senegaleses, transformando a ilha em uma verdadeira sala de aula a céu aberto.
Para o engenheiro civil Daouda Ndiaye, visitante entrevistado pela Agência Brasil, a preservação da ilha é essencial para manter viva a memória dos milhões de africanos afetados pela escravidão.
Atualmente, os sons de turistas, estudantes e comerciantes substituem o silêncio e o sofrimento que marcaram a ilha durante os séculos do tráfico transatlântico de africanos escravizados.









